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1982OCantoDosEscravos 

E tu conhecia isto?

o negro e o garimpo

Os cantos da série recolhida por Aires da Mata Machado Filho no fim dos anos 20 do século passado, em São João da Chapada, município de Diamantina, Minas Gerais.

Fundamentado em pesquisas de cantigas africanas outrora ouvidas nos serviços de mineração, Aires da Mata Machado Filho realiza importante estudo sobre as contribuições do negro à cultura brasileira. Obra valiosa, escrita por um mestre da filologia e do folclore e que é indispensável a todos quantos se interessem pelos temas sociológicos do Brasil. A reconstituição da história de São João da Chapada, povoação satélite de Diamantina, onde a comunidade negra deixou farto manancial para análises e interpretações.

Aires era filólogo, filósofo, professor de Filologia Românica da Universidade Federal e da Universidade Católica de Minas Gerais, historiador, jornalista, presidente, durante muito tempo, da Comissão Mineira do Folclore, foi um pioneiro em muitas frentes.

Escreveu, nos anos 30, já que sofria de deficiência visual, uma Educação de Cegos no Brasil, e publicava, no jornal O Estado de Minas, uma coluna semanal com lições de ortografia e gramática, além de responder às dúvidas dos leitores.
Vissungos – Tais cantos são chamados vissungos, palavra que vem do umbundo ovisungo (cantiga, cântico), conforme ensina Nei Lopes em seu Dicionário Banto do Brasil. Já era plano de Aires da Mata Machado recolher os vissungos e reunir o vocabulário e a gramática da língua dos negros benguelas. Teve pouco êxito na primeira investida; na segunda, ele e seu colaborador Araújo Sobrinho ouviram de um Seu Tameirão 200 palavras e algumas cantigas; adiante, surgiram outros cantadores que sabiam letra, música e tradução.

Mata Machado sustenta a importância dos vissungos, sua influência nos começos daquele arraial e mais “os vestígios da língua das cantigas na linguagem corrente, na onomástica e na toponímia” – os vestígios de um um dialeto banto num tempo em que se pensava que a língua dos negros trazidos como escravos para o Brasil resumia-se ao nagô.

Ele defendia que os estudos da dialetologia brasileira e questões que dissessem respeito à etnografia seriam sempre provisórios se não fosse considerada a importância de Minas Gerais – e o tempo encarregou-se de mostrar seu acerto…

Nas curtas estadas naquele aprazível e tranqüilo arraial, nunca deixei de observar alguma coisa sobre os tais cantos de trabalho, cuja importância foi crescendo em meu conceito, à medida que fui adquirindo conhecimentos novos. (Aires da Mata Machado Filho em O negro e o garimpo em Minas Gerais) – Cultura Brasil

O canto dos escravos

Em 1982, a gravadora Eldorado reunia em seus estúdios três das majestades negras da música popular brasileira: Tia Doca da Portela (pastora da Velha Guarda), Geraldo Filme (o primeiro-nome do samba paulista), e a Rainha Quelé, Clementina de Jesus. O projeto de Aluízio Falcão com direção musical de Marcus Vinícius e percussão de Papete viria a se tornar um dos mais antológicos álbuns da música popular: O canto dos escravos. Tratava-se da primeira gravação de 12 cantos de trabalho (ou vissungos) recolhidos na década de 1930 pelo folclorista mineiro Aires da Mata Machado Filho na região de Diamantina, no Norte de Minas Gerais.

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Segundo seu registro oficial, Geraldo Filme nasceu em São João da Boa Vista, no interior paulista, no ano de 1928. Contudo, segundo ele próprio afirmou no programa Ensaio da TV Cultura, ele teria nascido na capital paulista em 1927. São João da Boa Vista , foi o local onde ele foi registrado e batizado, por ser a terra natal de seus pais e familiares de ambos os lados. Na época era bastante comum, pelo menos entre as famílias negras, batizar e registrar os filhos na terra de origem da família como se a criança também fosse nativa daquela terra. Segundo ele a festa de seu batizado durou mais de um dia. O pai tocava violino, mas foi com a avó que conheceu os cantos de escravos que influenciaram sua formação musical. Sua mãe, de nome Augusta, tinha uma pensão nos Campos Elísios e ficou conhecida como “negra da pensão”. Ela fazia marmitas que o menino Geraldo entregava em toda a região, ficando conhecido como “Negrinho da Marmita”. Antes de ser dona de pensão, a mãe de Geraldo Filme foi empregada domestica de uma abastada família paulistana. Wikipédia

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Para a menina Doca, que morava com a mãe e os cinco irmãos na Favela do Pau Fincado, atual rabicho do cais do porto, no Caju, Frank Sinatra — cujo retrato adornava o barraco da vizinha e a voz se espalhava a partir do rádio da casa ao lado — era a síntese do gringo: todos falavam o mesmo idioma “embolado” e eram americanos de olhos azuis. Já as mulheres seriam a imagem e semelhança das bonecas que Doca via nas vitrines das lojas e com as quais sonhava. Sobretudo naqueles dias de dezembro, mês de seu oitavo aniversário e de mais um Natal.

Doca nasceu no Morro da Serrinha, em Madureira. A mãe foi a primeira porta-bandeira da Escola de Samba Prazer da Serrinha, gênese da Império Serrano, fundada em 1947. Passou os primeiros anos da vida ali, na quadra da escola. Tia Iaiá tomava conta da meninada da vizinhança enquanto os pais trabalhavam. E a ela cabia ensinar o bê-á-bá da batucada. Revista Zé Pereira

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Nascida na comunidade do Carambita, bairro da periferia de Valença, no sul do Rio de Janeiro,1 mudou-se com a família para a capital aos oito anos de idade,2 radicando-se no bairro de Osvaldo Cruz. Lá acompanhou de perto o surgimento e desenvolvimento da escola de samba Portela, frequentando desde cedo as rodas de samba da região. Em 1940 casou-se e mudou para a Mangueira. Trabalhou como doméstica por mais de 20 anos, até ser “descoberta” pelo compositor Hermínio Bello de Carvalho em 1963, que a levou para participar do show “Rosa de Ouro”, que rodou algumas das capitais mais importantes do Brasil e virou disco pela Odeon, incluindo, entre outros, o jongo “Benguelê”. Além deste gênero gravou corimás, jongos, cantos de trabalho etc., recuperando a memória da conexão afro-brasileira. Em 1968, com a produção de Hermínio Bello de Carvalho, registrou o histórico LP “Gente da Antiga” ao lado de Pixinguinha e João da Baiana.

Rainha Ginga. Quelé. Duas maneiras de chamar Clementina de Jesus, com a imponência do título de realeza e com a corruptela carinhosa de seu nome. Clementina evocava tais sentimentos aparentemente contraditórios. A ternura e o profundo respeito.

Bom, vou disponibilizar o disco pelo Grooveshark.

OUVIR! O Canto dos Escravos – 1982

Das Veredas 

Em 2002, época em que a Eldorado lançava e relançava títulos de seu célebre catálogo, intrigava a ideia do LP nunca ter sido remasterizado. Recuperamos o vinil e editamos esta audição que reuniu lado a lado os 12 cantos de 1982, o texto do folclorista que apresentava as cantigas publicadas em 1938, além de duas outras fontes determinantes: vissungos gravados em campo por Luís Heitor Corrêa de Azevedo em 1944, que revelam a prática do dialeto. Além das gravações de Paulo Dias e Marcelo Manzatti, que em 1997 atestavam a sobrevivência da tradição.

Hoje, O canto dos escravos está editado em CD e integra a discografia básica da música brasileira. Cultura Brasil

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