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OUVIR! LISTEN! John Coltrane – Stellar regions – 1995

“Isto é Deus. Mais que Deus: é a Mãe de Deus.
[…]
Estou em morada de homens e devo respeitar os seus Deuses… Mas de repente todos começam a correr. Atrás de mim, sob uma porção de folhas penduradas de ramos que servem de teto, acabam de estender o corpo inchado e negro de um caçador mordido por um crótalo. Frei Pedro disse que morreu há várias horas. No entanto, o Feiticeiro começa a sacudir uma cabaça cheia de sementes – único instrumento que esta gente conhece – para tratar de afugentar os mandatários da Morte. Há um silêncio ritual, preparador do salmo, que leva a expectativa dos que esperam o seu remate. E na grande selva que se enche de espantos noturnos, surge a palavra que já é mais do que palavra. Uma palavra que imita a voz de quem disse, e também a que se atribui o espírito que possui o cadáver. Uma sai da garganta do salmista; a outra, do seu ventre. Uma é grave e confusa como um subterrâneo fervor de lava; a outra, de timbre médio, é colérica e desregrada. Alternam se. Respondem se. Uma ralha quando a outra geme; a do ventre faz sarcasmo quando a que surge da garganta parece obrigar. Há como que transportes guturais, prolongados em uivos; sílabas que, de imediato, se repetem muitas vezes, chegando a criar um ritmo; há trinados cortados de súbito por quatro notas que são o embrião de uma melodia. Mas a seguir é o vibrar da língua entre os lábios, o ronco para dentro, o arquejo a contratempo sobre a maraca. É qualquer coisa situada muito além da linguagem, e que, no entanto, está ainda muito longe do canto. Qualquer coisa que ignora a vocalização, mas já é qualquer coisa mais do que a palavra. Ao prolongar um pouco, fica horrível, pavoroso, aquele grito sobre um cadáver rodeado de cães mudos. Agora, o Feiticeiro encara o, vocifera, bate com os calcanhares no chão, no mais desgarrado de um furor imprecatório que já é a verdade profunda de toda a tragédia – tentativa primordial de lutar contra as potências de aniquilamento que se atravessam nos cálculos do homem. Trato de manter me fora disto, de manter distâncias. E, contudo, não posso subtrair me à horrenda fascinação que esta cerimônia exerce sobre mim… Diante da teimosia da Morte, que se nega a soltar a sua presa, a Palavra, imediatamente, abranda e desanima. Na boca do Feiticeiro, do órfico salmista, estertora e cai, convulsivamente, o Canto Fúnebre, pois isto e não outra coisa é um canto fúnebre –, deixando me deslumbrar com a revelação de que acabo de assistir ao Nascimento da Música.”

Alejo Carpentier. Os passos perdidos.

A1 Seraphic Light 8:54
A2 Sun Star 6:05
A3 Stellar Regions 3:31
A4 Iris 3:50
B1 Offering 8:20
B2 Configuration 4:01
B3 Jimmy’s Mode 5:58
B4 Tranesonic 4:14

Escalação:
John Coltrane — tenor saxophone, alto saxophone on Tranesonic
Alice Coltrane — piano
Jimmy Garrison — bass
Rashied Ali — drums

 

Boa Audição!

 

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